Confissão de escritor frustrado e com TDAH: eu tenho o hábito nojento de começar projeto literário, empolgar por três semanas e depois abandonar no fundo da gaveta assim que uma ideia nova mais brilhante aparece do lado. Aconteceu em 97 é exatamente um desses cadáveres criativos: um manuscrito de terror social ambientado em São Paulo, no ano de 1997, que eu tinha deixado juntando poeira digital há um tempo. Pois bem, ressuscitei ele agora, na marra, pra concorrer à 4ª edição do Prêmio Kindle de Literatura Jovem.

E olha, não vou fingir que a escolha foi pura inspiração divina. Foi burocracia mesmo.

O regulamento do concurso é chato que só ele, tipo declaração de imposto de renda: a obra precisa ser uma história fechada, com começo, meio e fim, sem fazer parte de série, e sem reaproveitar nenhum personagem ou elemento de qualquer outro livro seu já publicado. Cheguei a cogitar outro projeto parado, e até pensei em usar o Sol de Sangue (que já apareceu aqui no site), só que os dois nascem pensados como parte de série maior, o que os desclassificaria antes mesmo de eu digitar a primeira palavra da inscrição. O Aconteceu em 97, ao contrário, sempre foi bolado como história única e independente. Foi literalmente o único candidato do meu cemitério de manuscritos que passava no teste burocrático.

Isso, aliás, me obrigou a fazer uma cirurgia chata no texto: existia um elemento na história original que, revendo com calma, eu percebi que tinha ligação direta com outro projeto meu ainda não publicado. Pra não correr risco de ser desclassificado por violar regra de originalidade bobinha, cortei esse elemento inteiro fora, sem dó. Doeu, mas fazia sentido.

Por que São Paulo, e por que 1997?

A escolha do cenário não foi chute. São Paulo é uma cidade caótica no melhor sentido possível pra quem escreve ficção: metrópole gigante, cheia de gente diferente, cheia de história boa e história podre acontecendo ao mesmo tempo na mesma calçada. É o mesmo tipo de terreno fértil que Nova York ou Los Angeles oferecem pra narrativa contemporânea, só que com molho brasileiro. E jogar isso pro passado deixa tudo ainda mais intrigante, porque a cidade já foi palco de tanta maravilha e tanta desgraça ao longo da história que virou cenário perfeito pra terror sem eu precisar inventar ameaça caindo de paraquedas de outro planeta. O próprio lugar já carrega peso suficiente sozinho.

Miguel, e um dom que ele nunca pediu

O protagonista se chama Miguel, tem 14 anos, e desde os 6 consegue ver, ouvir e sentir os mortos. Detalhe importante: esse dom é inato, não é trauma disfarçado nem despertar hormonal de adolescente, ele descobriu sozinho, criança, na área de serviço de casa (lugar mais banal do mundo pra descobrir que você é diferente de todo mundo, aliás). Vou parar por aqui na trama, porque estragar a experiência de quem for ler depois seria golpe baixo, mas esse ponto de partida já entrega o tipo de terror que estou construindo: mais psicológico e social do que susto barato de porta batendo.

Detalhe de bastidor que eu curto contar sem moderação: a entidade sobrenatural da história tem duas nomenclaturas dentro da própria trama, Tau, o nome antigo e mítico, e Tujá, o termo usado por um personagem específico da história pra se referir a ela hoje. Gosto bastante dessa dualidade de nome porque ela já entrega, sem precisar explicar nada, que estamos falando de algo que atravessou tempo e perdeu identidade original pelo caminho, o tipo de detalhe que sustenta o mundo por baixo sem precisar de parágrafo de explicação.

Capa do livro
Primeira versão da capa, sujeita a muitas, muuuuitas mudanças ainda...

O que vem agora

O plano é fechar o manuscrito em algo entre 26 e 28 capítulos, três atos, teto de cerca de 400 páginas. Ainda falta chão pela frente, mas resgatar esse projeto parado, cortar o que precisava sair e trazer alguém de fora pra parte mitológica já deixou essa versão infinitamente mais sólida que a tentativa original de anos atrás.

Se der certo, você vai ler mais sobre isso aqui. Se não der, pelo menos o manuscrito finalmente saiu da gaveta, e isso já é vitória suficiente pra mim. bigode-feliz