Tem uma coisa profundamente injusta em como Backrooms conseguiu me incomodar.
Não foi um monstro elaborado, não foi um vilão carismático, não foi nem sangue. Foi a porra da simplicidade do carpete molhado sob a luz fluorescente. É isso, meu parceiro.
Baixei essa bucenga de filme pra ver no sofá de casa achando que ia ser só mais um terror meia-boca e termino imaginando que talvez em algum lugar aleatório ali na Berrini, em um daqueles intermináveis escritórios de gente engomadinha que fuma vape, tem algum portal esperando um desavisado tropeçar na parede e ir parar naquele que talvez seja a melhor definição para “A casa do caralho”. 
Pra quem não acompanha a lenda, Backrooms nasceu do jeito mais nerd possível: uma imagem qualquer jogada no 4chan em 2019, sem cerimônia nenhuma. Virou curta em 2022, bombou com mais de 78 milhões de visualizações, e aí aconteceu o inevitável: alguém em Hollywood assistiu e pensou "isso aqui precisa de orçamento".
Só que em vez de chamar um diretor de currículo grande, a A24 fez a jogada mais "só que não" possível: contratou o próprio criador, Kane Parsons, que virou oficialmente o diretor mais jovem a comandar um blockbuster original de terror do estúdio, mais novo do que Spielberg era quando começou a carreira dele.
Apostar a produção inteira num moleque que ficou famoso postando vídeo de corredor vazio no YouTube é o tipo de decisão que só podia dar em desastre completo ou obra-prima acidental. Spoiler: deu na segunda opção.
A trama, sem entregar spoiler grande, é basicamente uma terapeuta que decide que é uma ótima ideia entrar numa dimensão desconhecida atrás de um paciente sumido que descobriu uma passagem para outra dimensão na parede da sua loja, e a partir daí, são 110 minutos de você torcendo silenciosamente pra câmera nunca virar aquele canto do corredor.
Isso porque nada nessa outra dimensão é óbvio. Tudo é distorcido, trocado, espelhado e bagunçado de alguma forma. Isso vale para coisas e pessoas.
É terror que aposta no vazio, na ausência, no "não tem nada aqui, mas por que eu tô suando frio então?". O tipo de sacada que faz jump scare barato parecer amador em comparação.
E olha, o elenco também não tá ali de bobeira: Chiwetel Ejiofor, Renate Reinsve, Mark Duplass, Finn Bennett e Lukita Maxwell dão um peso de "filme sério" pra uma premissa que começou como piada de fórum de internet.
E se você acha que só nerd de internet foi assistir: US$10,4 milhões arrecadados só nas pré-estreias americanas, virando a maior abertura da história da A24. E o filme não desacelerou desde então, já passando de US$330 milhões faturados no mundo todo.
Ou seja: o pesadelo coletivo que a gente compartilhava em fórum obscuro virou fenômeno mainstream, e agora sua tia que nunca ouviu falar de creepypasta também sabe o que é Backrooms. Progresso duvidoso, mas progresso.
Vale o ingresso? Sim, desde que você aceite a consequência colateral de nunca mais conseguir entrar num escritório vazio, num porão ou num corredor de motel sem aquele friozinho na nuca.
Se você já era fã dos vídeos originais, prepare-se pra ver a atmosfera que te fez perder o sono, ganhar tela grande e orçamento de verdade, sem perder a essência.
Se nunca ouviu falar antes, bem-vindo ao clube. A gente se encontra depois, no grupo de apoio pra quem tem medo de escritório.
É bom? Sim, acima da média, inclusive. Só não acho que conseguiu segurar o clima que os curtas geraram, assim com o hype, mas continua sendo um filme bom que vale o ingresso.

