São 10 pras 9 da noite, eu tô aqui parado olhando pra minha Steam aberta em um monitor, enquanto o outro roda uma playlist repetida no spotify.
Passo o mouse sobre a interface do aplicativo e logo sigo aquela sequência traumática pra todo jogador com mais de 30 anos.
É torturante, mas é inevitável conferir isso.

905.
NOVECENTOS E CINCO FUCKING JOGOS na minha Steam.
A mãozinha da instalação já começa a tremer junto com a pálpebra direita, mas eu sei que ainda tem mais.

A coleção “Backlog” conta 3/136.
A gente mente muito nessa vida, inclusive pra gente mesmo.
A gente mente quando diz que ia ficar só mais cinco minutinhos naquela festa e quando se dá conta, são 5 da matina e a chave do carro está debaixo de alguma das pessoas que dormiram no chão da sala.
Mentimos quando falamos que não vai doer, é só um dedinho quebrado, pensamento esse que geralmente precede um grito bem agudo quando médico coloca o osso no lugar. 
Só que meu parceiro, não tem mentira mais deslavada do que olhar pra uma lista de 905 jogos e dizer que só tem 133 pra zerar.
Eu arrisco dizer que pelo menos uns 300 jogos deveriam ocupar essa coleção.
É foda pensar que aos vinte anos, o problema era o oposto: eu tinha tempo sobrando e dinheiro curto.
Comprava um jogo, terminava, ficava com aquela sensação de vazio existencial, e ia atrás do próximo.
Hoje é o contrário: tenho o cartão de crédito relativamente são e o tempo é que evaporou. E o pior — ou o mais cruel, dependendo de quão dramático você quer que eu seja nesse texto — é que continuo comprando no mesmo ritmo de quando tinha vinte anos e as noites livres do universo inteiro.

Porra! A Steam Sale chega, o cérebro desliga completamente a parte racional que sabe, com absoluta clareza, que aquele RPG de 80 horas vai entrar numa fila que já tem outros doze RPGs de 80 horas esperando, todos comprados com a mesma promessa mentirosa de "semana que vem eu começo esse".
E não é preguiça, gente. Isso eu preciso deixar bem claro antes que algum recém-formado sem financiamento pra pagar venha me dizer que é só "administrar melhor o tempo". Backlog de adulto não tem a ver com disciplina, essa merda é a matemática cruel de vinte e quatro horas por dia menos trabalho, menos sono, menos as mil obrigações que ninguém avisou que viriam junto do "ser gente grande". 
Sobra ali, se tiver muita sorte, uma hora e meia à noite, tempo insuficiente pra progredir de verdade num jogo de mundo aberto, mas suficiente pra abrir, ficar meia hora recalibrando a memória de "onde é que eu tinha parado mesmo", e fechar de novo frustrado.
E aí tem a parte que ninguém fala em voz alta porque soa como desculpa de preguiçoso, mas não é: a disposição também foi embora, silenciosamente, em algum momento entre os vinte e cinco e os trinta. Não é só não ter tempo, é ter a hora e meia livre e o corpo simplesmente recusar.
Aquela vontade de sentar e mergulhar de cabeça numa campanha de sessenta horas, tipo eu tinha aos vinte, virou vontade de deitar no sofá vendo qualquer coisa que não exija reflexo, estratégia ou raciocínio depois de um dia inteiro gastando exatamente essas três coisas no trabalho.
Jogo deixou de ser descanso e virou, ironicamente, mais uma tarefa cognitiva, só que dessa vez opcional, o que faz ser ainda mais fácil de adiar.

E o corpo cobra a fatura de um jeito humilhante: sessão de duas horas de jogo que antes passava batida agora vem acompanhada de dor nas costas, olho ardendo, e aquela vozinha interna avisando que amanhã tem reunião às nove.
A gente não perdeu o gosto pelo jogo, perdeu é a bateria de fundo que sustentava sessão longa sem consequência física no dia seguinte.
É complicado admitir isso pra si mesmo sem soar velho demais aos trinta e poucos, mas aqui estamos: gerenciando energia como recurso escasso, igualzinho ao tempo.
Tem uma turma que resolve isso com planilha. Sim, existe gente civilizada o suficiente pra catalogar o backlog inteiro numa planilha, com coluna de prioridade e tudo. Eu tentei uma vez.
Durou quatro dias.
No quinto dia comprei mais dois jogos numa promoção e a planilha virou, ela mesma, mais um item do backlog: "organizar backlog".
Tarefa pendente, prioridade alta, zero progresso desde 2023.
E o giro final e mais doloroso dessa historinha toda é que, no fundo, eu não quero resolver isso. Aquela biblioteca lotada de jogo não tocado não é fracasso, é segurança.
É saber que, se um dia sobrar aquele fim de semana livre e com uma disposição quase jovial, vai ter escolha de sobra.
É a mesma lógica de quem enche a geladeira mesmo sabendo que metade vai estragar. O excesso é o conforto, não o consumo.
Então segue o ciclo: trabalho, chego em casa, abro a Steam, olho pros trezentos e quarenta e sete, escolho nenhum, assisto trailer de jogo que sai ano que vem, e vou dormir enrolado na certeza tranquila de que, algum dia, eu vou jogar tudo isso.
Vou sim. Algum dia eu vou…

