MobLand voltou dia 18 de setembro no Paramount+, com episódio novo toda sexta até 20 de novembro, e já vi os dois primeiros. Antes de qualquer coisa, vamos alinhar expectativa: a temporada 2 começa mais devagar que a primeira, e isso não é demérito, é matemática básica de roteiro. Temporada de estreia precisa fisgar o espectador logo de cara com gancho forte, sequência já consolidada tem mais liberdade pra respirar antes de acelerar.
Dito isso, mesmo nesse ritmo mais contido, o primeiro episódio já entrega reviravolta boa: Conrad Harrigan (Pierce Brosnan) e Maeve (Helen Mirren) vão fechar um acordo de heroína com o traficante turco Gakbu Ruzgar, só que descobrem na pior hora possível, na frente do próprio turco, que Kevin já tinha ido por trás das costas do pai e fechado negócio paralelo direto com o mesmo fornecedor.
O resultado: Conrad vira motivo de chacota, é chamado literalmente de "palhaço obsoleto" na frente dos turcos, e a fúria dele transforma a reunião num massacre. E o detalhe mais sinistro: tudo indica que foi a própria Kat McAllister (mais sobre ela já já) quem armou esse contato entre Kevin e os turcos de propósito, só pra abrir rachadura entre pai e filho.
Conrad enlouquecendo, e isso é ótimo pra série
Conrad nunca foi exemplo de paciência, a primeira temporada deixou isso bem claro em várias atitudes dele. Só que essa temporada 2 escancara de forma muito mais enfática que ele tá genuinamente perdendo o controle, seja por idade, seja por algum problema mental se instalando, seja pela pressão da situação acumulando.
E tem motivo de sobra pra isso: o próprio filho, Kevin Harrigan (Paddy Considine), virou uma espécie de oposição interna ao reinado do pai, o que é um puta desenvolvimento de personagem se continuar sendo bem explorado. Maeve continua sendo a víbora que sempre foi, cheia de tática pra manter controle de todo mundo ao redor, sem perder um milímetro de veneno.

O neto e a garota que virou só pretexto de roteiro
Eddie Harrigan (Anson Boon), o neto, agora tá morando com Gina (Teddie Allen), filha do Harry, e aqui mora meu principal ponto de ressalva da temporada até agora. Gina segue naquela vibe de pós-adolescência revoltada, só que, sinceramente, já tá beirando o exagero. Ela foi bem construída na primeira temporada, tinha relevância de verdade.
Agora, parece que o roteiro reduziu ela a puro pretexto narrativo: o ponto fraco exposto de propósito pra justificar o Harry entrar em ação mais pra frente, gerar cena de ação, mexer com a trama principal. É a única explicação que faz sentido pro tanto de tempo de tela que ela tá recebendo sem desenvolver nada de novo, porque do jeito que tá, ela beira o irritante.
Já o Eddie continua sendo tudo que era na primeira temporada: ótimo ator, personagem bem interpretado, mas até agora sem nenhuma grande cena de destaque. O que é perfeitamente compreensível, afinal só tivemos dois episódios até aqui, ainda é cedo pra cravar julgamento sobre o arco dele.
Sangue novo chegando
A temporada também já começou a introduzir capangas novos, incluindo o sobrinho de um dos braços direito veteranos da família, reforçando o time em torno dos Harrigan conforme a guerra interna e externa vai se desenhando. Ainda é cedo pra saber o peso real desses personagens novos, mas dá pra sentir que a engrenagem tá sendo montada pra alguma coisa maior.
Harry continua sendo o motivo de todo mundo assistir
Precisa ser dito com todas as letras: Harry Da Souza (Tom Hardy) é pra MobLand o que o Henry Cavill era pro The Witcher antes de sair, o nome que puxa a audiência sozinho. E o personagem, por enquanto, ainda não entregou tudo que a gente sabe que ele é capaz de entregar (questão de roteiro, não de atuação), mas o nível do Tom Hardy continua lá no topo, sem nenhum desnível perceptível da primeira pra segunda temporada.
Ele tá ali sobrevivendo no meio do fogo cruzado entre a instabilidade crescente de Conrad e a oposição de Kevin, inclusive já teve uma conversa direta com Kevin sobre exatamente essa tensão logo no primeiro episódio.
O que mais funciona no Harry é como ele transita entre ação pesada e alívio cômico sem nunca soltar a mão de nenhum dos dois lados. A atuação do Tom Hardy entrega isso através da expressão facial mesmo, você sente que aquele cara não é normal, é assassino e bandido raiz, mas também é pai de família tentando equilibrar os pratos numa vida que já foi pro saco há muito tempo. Tem um humor meio trágico nisso que funciona muito bem.
E a ameaça externa já começa a se desenhar com nome e sobrenome: Kat McAllister (Janet McTeer), que na primeira temporada era só uma figura misteriosa no fim do tabuleiro, agora é revelada como embaixadora dos Estados Unidos no Reino Unido, operando com uma frieza e jogo de longo prazo que contrasta propositalmente com o estilo impulsivo e quente no sangue dos Harrigan.

Ela claramente farejou a instabilidade da família e já começou a costurar acordo com a própria Seraphina (filha ilegítima do Conrad) pra ajudar a tomar o trono por dentro. E tem ainda o Colin Tattersall (Toby Jones), detetive veterano obcecado em derrubar os Harrigan há anos, que se oferece pra achar um "paladino" pra Kat, ou seja, um criminoso em ascensão que ela consiga moldar e controlar a longo prazo pra dominar Londres.
Até o fim do primeiro episódio, ele já tinha escolhido o candidato: um bandido chamado Frankie Cooper (Johnny Flynn). Ainda é cedo pra saber o peso real desse trio na trama, mas o roteiro já deixou bem claro que eles são peça central do tabuleiro daqui pra frente.
Impressão até aqui
Dois episódios não são suficientes pra fechar veredito definitivo, mas a direção geral tá correta: ritmo mais lento de propósito, personagens centrais (Conrad e Maeve, principalmente) ganhando camada nova de instabilidade genuína, e só a Gina patinando como ponto fraco perceptível até agora.
Se a série continuar desenvolvendo o conflito pai-filho entre Conrad e Kevin do jeito que começou, tem chão pra ficar ainda melhor que a primeira temporada. Sigo acompanhando e trago mais impressão conforme os episódios forem saindo.

